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Aproveitando o dia da malária…

Philip Bejon e Salim Abdulla, em trabalhos distintos, mostraram que a vacina da malária em testes está com resultados promissores. Os trabalhos de ambos foram publicados no New England Journal of Medicine, um dos jornais mais respeitados de Clínica Médica (ISI = 51,29). Ok, num outro post explico o que é ISI e a adoração pelo chamado “fator de impacto”.

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Bejon e cols realizaram um trial clínico com 800 bebês de 5 a 17 meses na Quênia e Tanzânia (sempre na Africa). Os pesquisadores utilizaram a vacina chamada RTS,S/AS01 e observaram que a eficiência dela era de 56% contra os episódios de malária 8 meses após terem tomado a terceira dose de vacina. A eficiência foi bem maior que o outro trial que ocorreu em Moçambique (27%) onde utilizaram o RTS,S/AS02A.

O sucesso que o RTS,S mostrou tem estimulado a pesquisa para criação de vacina de segunda geração que tenha uma eficiência de no mínimo 80%. O progresso do RTS,S nos últimos 10 anos levanta a probabilidade da vacina ser utilizada em países com áreas endêmicas e progredir para o objetivo da erradicação da doença no mundo.

Mosquito anopheles (vetor da malária)

Mosquito anopheles (vetor da malária)

Em outubro de 2007, Bill Gates fez o seu famoso discurso, pedindo a erradicação da malária. 2 anos depois, o mundo fez avanços notáveis em relação à doença. Como? 1) Controle agressivo da malária nos países tropicais; 2) eliminação progressiva das margens endêmicas e 3) pesquisas para produção de vacina, melhores medicamentos, diagnósticos e inseticidas. Nem tudo isso funcionou, é verdade. Mas em geral, há razões para o otimismo. Com exceção dos países que sofrem de conflitos, os 61 países que tem regiões endêmicas tem feito grande progresso em reduzir a morte e doentes nos últimos 10 anos. E também a primeira vacina contra malária está sendo desenvolvida; e diversas ONGs arrecadaram mais de 37 milhões de dólares para ajudar os doentes. Tudo isso parece direcionar o mundo a ser livre de malária até a metade do século XXI.

… como eu.

Que Einstein era um gênio, grande novidade. Quando  ele morreu, em 1955, um patologista removeu o cérebro dele (pobre Einstein, todos cobiçando a sua cabeça), preservou, mediu, fotografou e… cortou a maioria do cérebro em 240 bloquinhos. E o resto, ele guardou numa jarra, que aliás está agora na Universidade de Prienceton (EUA). De lá pra cá, muitos cientistas estudaram o cérebro dele em busca de evidências anatômicas que justificassem a sua genialidade – que não era o peso, pelo menos (era igual à media dos humanos).

Crédito: The Lancet

Crédito: The Lancet

Dean Falk teve o trabalho de observar o cérebro do Einstein e ela reparou, em comparação com 58 cérebros controle que o lobo parietal  – parte implicada em cognição espacial, visual e matemática – era 15% maior do que os lobos parietais normais.  Einstein tinha uma habilidade superior para conceitualizar os problemas físicos. Ele dizia que não pensava em palavras, mas que os pensamentos vinham como imagens e sensações (fico pensando como seria os números não como números, mas como uma sensação).

Pensar dá fome

Rá! Essa todos nós já sabíamos. Mas acabo de descobrir que essa (triste) constatação empírica das nossas vidas já tem comprovação – e até explicação – científica.

Uma coisa que me intrigava é que meu professor de bioquímica já havia me dito que o gasto calórico de assistir Ana Maria Braga ou fazer a prova da Fuvest era essencialmente o mesmo, ou seja, é o gasto de ficar sentado. Mas, então, porque pensar dá mais fome?

Para responder a essa pergunta, 14 estudantes canadenses realizaram três tarefas, em tempos diferentes: sentar e relaxar; completar uma série de testes de atenção e memória; e ler e resumir um texto. As atividades intelectuais consumiram só 3 calorias a mais do que ficar sentando de bobeira. Em compensação, quando, depois do experimento, os voluntários foram levados para um bufê onde podiam comer à vontade (para vocês verem como é bom ajudar o progresso da ciência) aqueles que tinham resumido o texto comeram 203 calorias a mais, e os que tinham feitos os testes de atenção, 253.

Os voluntários tiveram seu sangue colhido antes, durante e depois das tarefas. E o que se viu foram grandes flutuações nos níveis de glicose e insulina. Como a glicose é o combustível do cérebro, uma baixa transitória nas suas concentrações pode levar seu cérebro a direcionar suas mãos para a guloseima mais próxima, ainda que o aumento na queima de calorias tenha sido mínimo. E para os responsáveis para o estudo, essa supercompensação calórica após atividades intelectuais, somado ao fato de que nós ficamos fisicamente menos ativos durante essas atividades (e que elas, e não a caça de perdizes selvagens são o ganha-pão de um número crescente de humanos ao redor do planeta) poderia ajudar a explicar a atual epidemia de obesidade.

Hmmm… Pensando bem, isso poderia explicar mais algumas coisinhas…

Será que é por isso que modelos são tão magrinhas?

No início de março, o Papa Bento XVI, em sua primeira visita a África, disse aos jornalistas que o combate a HIV/AIDS no continente é um problema que não pode ser superado com a distribuição de preservativos, pelo contrário, isto aumenta a incidência de HIV/AIDS.

Crédito: Times

Crédito: Times

Sabemos bem a posição da Igreja Católica quanto a questão do controle da natalidade, mas dizendo que preservativos exacerbam o problema de HIV/AIDS, o Papa distorceu publicamente as provas científicas para promover a doutrina católica sobre esta questão.

A comunidade internacional reagiu rapidamente, condenando fortemente o dito.  O Chefe de comunicação do Vaticano, Padre Frederico Lombardi, tentou aplacar a ira, dizendo no site Holy See que na verdade o papa quis falar que havia um “risco de que os preservativos possam aumentar o problema”. Oh boy, too late. Quando uma pessoa influente, seja ele religioso ou político, faz uma falsa declaração científica que pode ter consequências desastrosas para saúde de milhões, deveria pelo menos retratar ou corrigir o fato.

Seria ironia pensar que  muitas pessoas, incluindo milhares de católicos, trabalham direto para tentar impedir a propagação da doença no mundo. Mas o que adianta, se o preservativo do mal aumenta o problema?

Detalhe: mais de 22 milhões de pessoas na África sub saariana estão infectados com HIV, de acordo com dados de 2008 da UNAIDS/OMS.

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Os neurocientistas querem de qualquer forma inventar uma máquina que apaga memórias, como a do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, ou o NEURARIZADOR dos Homens de Preto. Até agora, o melhor resultado foi fruto da  injeção de substâncias tóxicas nos cérebros dos ratos para que estes esquecessem as memórias que causassem medo – o que não poderia ser reproduzido nos humanos… “eu esqueco tudo e vou a óbito também“.

Um novo método foi idealizado pela Dra. Marie Monfils. Ela e sua equipe treinaram ratos a esperar receber um choque toda vez que eles ouviam um som. Os animais ficavam assustados toda vez que ouviam o som. No dia seguinte, o som foi tocado uma vez, para que os animais relembrassem da experiencia assustadora, e depois de 1 h, o som foi tocado várias vezes (18), mas sem a adição do choque, que ela chamou de  “treinamento intenso”. Os ratos pararam de ficar assustados, e o benefício durou pelo menos um mês.

O legal desse experimento é que os animais que não receberam o “lembrete”, ou seja, antes do “treinamento intenso” não receberam o som para relembrar a experiência, continuaram com medo, ou seja, de alguma forma o delay de 1 h ajudou os animais a esquecer a memória assustadora.

Se você quiser ler o artigo (e tiver acesso à Science), o link é aqui.

Lá se vai minha aposentadoria...E a testosterona vai aprendendo a dividir o seu reinado. Depois que eu alertei aqui sobre a importância de se prestar atenção também ao cortisol, os cientistas finalmente acordaram para a questão (espero que a Academia Sueca não ignore minha inestimável contribuição a esse caso). Estudo publicado essa semana (no PNAS, é lógico) é mais um da safra que vai até às Mecas do mercado  financeiro para tentar descobrir, afinal, qual é o problema com aqueles caras que agora todo mundo adora odiar. E depois de avaliarem os altos e baixos hormonais do pessoal do mercado de opções durante uma semana, chegou-se à conclusão  que:
  • Em meio a bolhas de crescimento, a testosterona parece deixar os investidores excessivamente confiantes, e eles passam a agir de modo irracional.
  • Em meio a crises, o cortisol parece deixar os investidores excessivamente assustados, e eles passam a agir de modo irracional.
Suponho eu, então, que a boa notícia é que, a cada século, existem uma ou duas semanas em que os operadores financeiros agem de modo tranquilo e razoável.

Só para constar: este artigo é o trabalho mais lido deste ano dos publicados na revista PNAS, de acordo com a estatística apresentada no site da mesma.

A autora, a química Susan Solomon, 52, foi uma das primeiras a se preocupar por causa dos relatórios de deterioração da camada de ozônio do planeta em 1980. Em 86 e 87, ela conduziu expedições à Antártida, e trouxe de volta a confirmação de que houve, de fato, um crescente buraco de ozônio e que os produtos químicos conhecidos como clorofluorcarbonos (CFCs) estavam causando isto. Essas conclusões ajudaram a conduzir a proibição global do uso de CFC. O Nobel da Paz de 2007 foi atribuída a ela e ao Painel Intergovernamental de Alterações Climáticas das Nações Unidas (IPCC). Além disso, ela foi eleita como uma das 100 cientistas mais influentes do mundo em 2008, pela revista TIMES, sendo uma das principais cientistas que estudam o clima do nosso planeta.

A severidade dos danos causados pelos homens na mudança climática depende não somente da magnitude mas também do seu potencial para a irreversibilidade. Este trabalho mostra que a mudança climática que ocorre por causa do aumento da concentração do dióxido de carbono (CO2) é absolutamente irreversível mesmo após 1000 anos das emissões terem cessado. Entre outros impactos ilustrativos que devem ser esperados se as atuais concentrações do CO2, 385 partes por milhão por volume (ppmv), subirem para um máximo de 450 – 500 ppmv durante o próximo século, as chuvas ficarão extremamente escassas em diversas regiões, formando “redomas de pó”. A expansão térmica do aquecimento do oceano mostra que no século XXI os níveis globais do mar devem subir pelo menos 0,4 a 1 metro se as concentrações de CO2 subirem para mais de 600 ppmv. Outras “contribuições” para a mudança do nível do mar seria o derretimento de geleiras e gelos .

Grafico mostrando a emissão de CO2. Mesmo após a parada da emissão (emissão zero), o nível de CO2 não irá diminuir até o ano 3000. Crédito: Solomon e cols.

Grafico mostrando a emissão de CO2. Mesmo após a parada da emissão (emissão zero), o nível de CO2 não irá diminuir até o ano 3000. Crédito: Solomon e cols.

Resumindo, se Deus Ex Machina fisesse parar HOJE de emitir CO2 na Terra, mesmo assim o estado do clima seria Irreversível. Mas se continuar a aumentar a emissão, vão acontecer muitas mudanças, falta de chuva, e aumento do nível do mar, ambos com grande impacto para humanos.

Minha consciência pesa e digo que não sou uma pessoa que está consciente das emissões de CO2 o tempo todo. Não vou escrever aqui sobre como deveria melhorar o transporte publico na cidade de São Paulo, ou coisas do genero, mas nós todos deveríamos tentar alguns pequenos gestos para emitir menos CO2.

Se você estiver interessado em saber quanto de CO2 emite por dia, acesse aqui ou aqui.

Momento mágico: essa imagem simboliza o algoritmo descobrindo a mecânica Hamiltoniana

Momento mágico: essa imagem simboliza o algoritmo descobrindo a mecânica Hamiltoniana

Se a gente já fica feliz com um programa que manda os dados que ele acabou de coletar direto para o Excel (e nós ficamos realmente felizes com isso), imagine se ele fizesse o serviço até o fim, aproveitando o embalo pra já ir te adiantando a discussão e conclusão do seu paper. (Ou, o que seria mais provável, já fosse te adiantando que seus dados não são grande coisa e você vai ter que fazer tudo de novo, provavelmente com uma risadinha sarcástica.)

Pois isso pode estar mais perto do que a gente imagina depois do que um pessoal da Cornell fez: eles encheram os computadores de dados sobre movimentos pendulares (desde aquele pêndulo clássico que você viu na sua primeira aula de movimento oscilatório até pêndulos duplos caóticos) e esperou o computador deduzir as leis naturais por trás desses movimentos. O que humanos levaram centenas de anos pra descobrir, o programa resolveu em um dia.

A essência da coisa é o famoso data-mining, ou seja, a prospecção dos dados. Ok, o software tem um zilhão de informações a seu alcance, mas o que ali é realmente relevante? Como encontrar padrões estáveis e significativos, que podem levar a formulação de leis naturais? Esse foi o trabalho dos físicos da Cornell. Eles usaram a regressão simbólica, um método baseado na computação evolutiva, que tem um rationale familiar a qualquer biólogo. Enquanto as regressões lineares e não lineares tradicionais encontram os parâmetros para uma equação de uma dada forma, a regressão simbólica procura ao mesmo tempo os parâmetros e a forma da equação. Expressões vão sendo formadas randomicamente usando bloquinhos matemáticos básicos (+, -, seno, cosseno, constantes e variáveis de estado). O algoritmo então retém as equações que modelam os dados experimentais melhor do que as outras, e abandona soluções que não parecem promissoras. A cada “geração”, os “indivíduos” com maior fitness são escolhidos, e deixam “descendentes” que vão sendo selecionados para melhor explicarem os dados experimentais, como um criador de bois vai escolhendo aqueles mais gordinhos, ou as vacas que dão mais leite (desculpem, sou bióloga, é inevitável).

O penúltimo parágrafo é bem explicativo:

“Nós usamos essa abordagem para detectar leis de conservação não-linear de energia, as leis de Newton, invariáveis geométricas (…) em diversos sistemas, sem conhecimento prévio sobre física, cinemática ou geometria. As expressões analíticas concisas que nós encontramos são de fácil interpretação humana e ajudam a revelar a física por trás dos fenômenos observados. Existem muitas aplicações para essa abordagem, em áreas que vão da biologia de sistemas à cosmologia, onde gaps teóricos existem a despeito da abundância de dados”.

Ganha um doce quem matar a charada: se o penúltimo parágrafo do trabalho exalta o programa, então o último exalta… a nós, claro. Parece que o pessoal já ficou com medo de máquinas à espreita para roubar o seu emprego.

Digamos que a humanidade tem um certo histórico nesse ramo.

(O artigo original está aqui e é absolutamente fantástico. Os editores também recomendam esse outro artigo da mesma edição que mais uma vez lembra – a quem? – como nós somos mais importantes do que as máquinas.)

A Science, junto com a Nature, é, talvez, a revista científica  mais famosa e de prestígio internacional, atingindo uma grande parcela de pessoas, tanto da comunidade científica como os leigos. E sim, um trabalho de um brasileiro foi capa desse revista em março.

Trajetórias dos  movimentos. Os animais com dificuldade de iniciar o movimento estão ilustrados no quadrado preto, com linhas brancas. A recuperação da atividade locomotora após o estímulo elétrico na coluna dorsal da medula espinhal está mostrada nos quadros brancos, com linhas pretas. Crédito: Science

Trajetórias dos movimentos. Os animais com dificuldade de iniciar o movimento estão ilustrados no quadrado preto, com linhas brancas. A recuperação da atividade locomotora após o estímulo elétrico na coluna dorsal da medula espinhal está mostrada nos quadros brancos, com linhas pretas. Crédito: Science

A equipe do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis (Universidade de Duke, EUA) tratou o principal sintoma da doença de Parkinson, os distúrbios do movimento, com eletrodos instalados na medula espinhal de roedores que apresentavam dificuldade de movimento semelhantes às pessoas que possuem a doença. Os animais, estimulados pela eletricidade na coluna dorsal, tiveram seus movimentos normais restituídos. Este procedimento é bem mais simples do que o DBS (“deep brain stimulation”), uma cirurgia altamente invasiva na qual instala um marcapasso no cérebro. O pesquisador afirma que o procedimento, como é mais simples do que um DBS, poderia ser utilizado por qualquer pessoa em qualquer estágio da doença.
É com entusiasmo que este tratamento é recebido, pois não há cura para a doença de Parkinson, doença neurodegenerativa de origem desconhecida, com características clínicas como tremor, lentidão do movimento, enfim, uma série de dificuldades motores que afetam substancialmente a qualidade de vida do paciente.

Se o método de Nicolelis, que seria mais simples (pois o procedimento cirúrgico dura somente 20 min, onde basta abrir a pele e colocar os eletrodos na superfície da medula espinhal) reproduzir resultados promissores em humanos, uma nova possibilidade de terapia estaria disponível, além das já disponíveis (diversos medicamentos, DBS).

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