Tudo começou com uma troca de algarismos. Um relatório publicado em 2007 pelo IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática, comissão científica patrocinada pela ONU) saiu com um erro tipográfico. Em vez de preverem que o aquecimento global derreteria as geleiras do Himalaia por completo até 2350, acabaram anunciando o derretimento até 2035.
E daí?
Daí que existe uma infinidade de ávidas criaturinhas espalhadas por todo globo só esperando pela prova cabal e irrefutável de que essa história de que o aquecimento global atingiu as proporções atuais por causa da nossa espécie não passa de intriga para iludir os incautos. Uma parte dessas ávidas criaturinhas é só extremamente ingênua, a maior parte está agindo de má-fé mesmo. De todo modo, elas têm amplo acesso às principais fontes de “informação” do mundo inteiro (duvida? clique aqui), e abocanham com gosto qualquer oportunidade de mostrar que essa história de se preocupar com o clima é bobagem.
O IPCC errou? Errou. É inevitável que ele erre, dessa maneira e com essa frequência? É discutível (e a Nature discute isso essa semana aqui ou aqui). Agora, a equação IPCC = aquecimento global (e a ideia de que dando cabo do primeiro resolvemos o segundo) só existe em mentes de muita má-fé. Jornalista da Veja dizendo que o aquecimento global não existe baseado na sua intuição é dolo de premeditação.
“Fui muito otimista”
Quebrar o termômetro não vai fazer a febre passar. Mas encarar o aquecimento de frente tem custos, enormes custos. Um dos caras que calculou esses custos foi o economista britânico Nicholas Stern, autor de um dos mais influentes cálculos dos efeitos do aquecimento global na economia. Em plena temporada de caça ao IPCC ele veio a público defender o órgão e ainda acrescentou: “eu subestimei os efeitos do aquecimento”. Em entrevista ao jornal Le Monde na semana passada ele disse que foi “muito prudente, muito otimista” no seu relatório de 2006. E que é preciso baixar mais a concentração de gases estufa – e investir mais dinheiro nesse objetivo – do que ele havia previsto.
Alguém precisa dizer ao senhor Reinaldo Azevedo que os “céticos do Apocalipse” são os profetas da irresponsabilidade eterna. E não tem nada de novo nisso.

