Ou pelo menos do que eu pensava (e pode substituir o “esquisito” por “evolutivamente condenado”). Ursinhos panda pertencem à família do mico-leão-dourado de fofuras ecológicas: a grande importância deles nos seus ecossistemas é a de serem garotos-propaganda do próprio ecossistema. Como dizia um biólogo amigo meu, campanhas para salvar as formigas da mata atlântica não têm muito apelo comercial. É mais ou menos como contratar uma modelo jovenzinha para fazer propaganda de anti-rugas: se você fosse sincero com seu público, ele não ia comprar seu produto. Então, em vez de camisetas com vespas venenosas ou besouros de hábitos anti-higiênicos, você elege algum animalzinho mais bonitinho para simbolizar os seus esforços de preservação e esperar que as pessoas se comovam com sua fotogenia. Pandas são um exemplo extraordinário dessa tendência: são um símbolo internacional da preservação ambiental e parecem estar só fazendo hora extra na terra. (Eles são bichos enormes, que só se alimentam de um tipo de comida que depende da conscientização ambiental dos chineses para continuar existindo – hello?) Mas aí o pessoal resolve seqüenciar o genoma desse bichinho e o que eles descobrem? Que os pandas têm TODAS as enzimas para digerir carne e nenhuma remotamente parecida com uma celulase (que são as enzimas que digerem a celulose presente nos vegetais – e que animais herbívoros costumam ter sobrando). Considerando que os pandas fazem parte da ordem Carnivora (de nome auto-explicativo), isso não é exatamente uma surpresa. Mas quando eu penso que um bicho que podia estar comendo o que lhe desse na telha está ameaçado de extinção por que a única coisa que ele se digna a comer está sumindo do mapa… Bem, essa não é a única razão pela qual ele está ameaçado de extinção, mas ainda assim eu acho que é para ler o artigo ouvindo He had it comin’.
Comentários maldosos sobre os pobres pandinhas à parte, o que os pesquisadores que comentaram o artigo querem saber é: se nós sabemos que o problema dos pandas é o hábitat encolhendo, para que exatamente gastar dinheiro seqüenciando seu genoma? Não que seja inútil, mas será que não podemos usar a verba disponível de maneira mais eficiente? Quando saiu o genoma do Schistosoma mansoni, um professor de biologia fez uma pergunta parecida: se nós sabemos que as pessoas se infectam com o esquistossoma por terem contato com água contaminada, será que o melhor jeito de proteger as 35 milhões de pessoas que, estima-se, estão sob risco de contaminação no Brasil, é seqüenciando o genoma do helminto? E ele citou um caso que eu presenciei. No meu primeiro ano de faculdade, ainda na biologia, esse professor ministrou uma aula-trote. Lá pelas tantas, ele disse que, para evitar o crescente número de urubus nas turbinas dos aviões, estava sendo realizado um melhoramento genético nas aves, de modo a selecionar geneticamente aquelas que voam baixo (uma piada, evidentemente). Mas um colega meu, ainda levando a sério a aula, perguntou: não é mais fácil mudar as turbinas do que os urubus?
Pois é. Talvez repensar prioridades impeça que o panda vire o próximo dodô – e vá de garoto-propaganda a mártir da causa.


Ah, vai… tadinhos dos pandas! Pensa por esse lado: como sabem que o estômago dos bichos é tão carnívoro quanto de qualquer outro Carnivora, eu chutaria que o problema deles é na cabeça – e tendo um genoma em mãos, fica mais fácil (ou menos difícil) descobrir que mudanças genéticas podem levar a alterações comportamentais…
Você quer dizer que, de repente, umas sessões de terapia comportamental resolvem o problema do panda? ;)
Acho que ele precisavam, viu? Hehe
O que eles viram no genoma é o seguinte: que os pandas não têm receptores de umami (quer dizer, os receptores não são funcionais), e talvez por isso eles não comam carne, por uma questão de paladar mesmo. E eles supõem que as bacs do estômago deles devem digerir celulose, que nem acontece com os outros mamíferos que são estritamente herbívoros.
Ana, amei o post!!!
Fiquei feliz com a volta das atualizações no blog!!!
E ainda fiquei emocionada, ao lembrar da nossa aula trote…lembro inclusive da cena do aluno contestando o professor a respeito das turbinas…. rs
Aaahn… esse aluno, tem um grande futuro como professor, viu? rs