Ou: Ble, Galazio e Kraudlortok reloaded.
A Sra. Boroditsky, uma guriazinha com cara de Uma Thurman e professora em Stanford e no MIT [/envy], acaba de publicar um texto com o título acima no edge.org (sempre ele). A pergunta é a mesma que nós já fizemos anteriormente; a resposta, também. Em resumo: sim, dá pra gente concluir que a linguagem molda a maneira que a gente pensa. A graça está em como fazer para concluir essas coisas:
1. Uma viagem para Pormpuraaw, uma comunidade aborígene australiana.
Muitos grupos aborígenes usam referenciais absolutos para falar sobre espaço. Então, em vez de usarem indicações como “esquerda” e “direita”, eles dizem coisas como “tem uma formiga na sua perna sudeste” ou “mova a xícara a norte-nordeste um pouquinho”.
Isso é particularmente interessante por que a gente constrói uma série de representações metafóricas baseadas na nossa noção de espaço. Exemplo: nossa representação de tempo. Se você (um falante da língua portuguesa, presumo) tivesse que ordenar uma série de imagens como as abaixo, o faria em que ordem?

Provavelmente da esquerda para direita, enquanto falantes de hebraico (que escrevem da direita para esquerda), ordenam na ordem inversa – isto é, do mesmo modo como escrevem. E os aborígenes? Depende. Quando estão sentados virados para o sul, ordenam da esquerda para a direita. Virados para o norte, da direita para a esquerda. E quando virados para o leste, arranjam as imagens na direção do próprio corpo, de cima para baixo – ou seja, eles sempre ordenam as cartas no sentido leste-oeste. E não precisam de bússola: eles sabem muito bem onde estão no espaço.
2. Um experimento com americanos e gregos: para eles o tempo passa diferente?
Quem já tentou aprender inglês sabe como é se acostumar a isso: se não vai demorar muito, é por que it won’t take long; nós (assim como os gregos) pensamos em quantidade, eles em comprimento. Uma consequencia disso é que uma habilidade cognitiva básica, como a estimativa de duração, varia de acordo com a metáfora escolhida: americanos acham que uma linha de comprimento maior passa mais tempo sendo exibida na tela do que uma linha curta, enquanto gregos acham que um pote mais cheio fica mais tempo na tela que um mais vazio.
3. Um experimento com alemães e espanhóis: a morte é menina ou menino?
Alemães, assim como nós e os espanhóis, atribuem gênero aos substantivos (e falantes do inglês acham esse hábito deveras curioso). Chave, em alemão, é masculino; em espanhol, feminino. Ponte é o contrário. O que acontece se a gente pedir para alemães e espanhóis atribuirem adjetivos a “chave” e “ponte”? Enquanto os alemães acham que as chaves são “duras”, “pesadas”, “metálicas” e “úteis”, os espanhóis acham elas “pequenas”, “douradas”, “brilhantes” e “intrincadas”. (E eles acham tudo isso em inglês, que não tem gênero atribuído aos substantivos.) Com a ponte acontece o contrário, e até a morte segue o mesmo padrão. 85% das personificações da morte em obras de arte podem ser previstas pelo gênero da palavra “morte” na língua nativa do pintor. Para os alemães, é um homem. Para os russos, uma mulher.
4. Just checking: e como a gente sabe que a língua que molda a nossa percepção, e não os fatores culturais que moldam a língua?
O pessoal de Stanford ensinou falantes de inglês a atribuir gênero a certos substantivos, como fazemos nós (e quase todo mundo, creio), e eles começaram a achar que as chaves eram femininas e as pontes masculinas, ou vice-versa.
Aí eu me pergunto: e se pedir para um brasilero atribuir qualidades ao sol (feminino em alemão) ou a um piano (neutro em alemão) em alemão? É diferente do que atribuir adjetivos às mesmas palavras em português?
E tem uma coisa que eu acho engraçado: certas palavras parecem equivalentes (como ble e azul-claro, e galazio e azul-escuro), mas fazem toda a diferença na nossa percepção de mundo. Ao passo que eu acho que o fato de nós não termos uma palavra para designar aquela ótima-resposta-que-só-ocorre-quando-já-é-tarde-demais não significa nós vejamos o mundo diferente dos alemães (nesse sentido pelo menos). Em outras palavras: no primeiro exemplo temos a palavra, mas não a ideia. No segundo temos a ideia, mas não a palavra.
No caso, treppenwitz.