Não, ela não está! Ou pelo menos é o que eu acho (e o Pinker me apoia!).
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Estava eu mexendo na minha gaveta hoje e dou de cara com algumas anotações que eu fiz de Tábula Rasa, livro do linguista (Psicólogo evolutivo? Neurocientista?) Steven Pinker. Por dois segundos achei que as frases eram minhas mesmo, e não copiadas do livro. Foram dois segundos felizes.
O livro trata de uma velha questão: somos mesmo uma lousa em branco, onde se pode escrever o que quisermos ou já nascemos com algumas informações de fábrica?
A antropóloga Margareth Meade, por exemplo, defendia que todas as diferenças entre homens e mulheres vinham da cultura. Parece difícil acreditar que algum realmente pense uma coisa dessas, mas o fato é que esse tipo de ideia ainda tem grande aceitação. Com todas as críticas que se possa fazer ao trabalho do Pinker (ele distorce beeem as ideias do Rousseau e a birra dele com o Hobbes, só para citar um exemplo incômodo), eu ainda acho o livro incrivelmente bem escrito. E, se por outra razão não fosse, gostaria só por que foi ele quem me apresentou à lista de universais humanos do Donald E. Brown. Eu acho ela interessante não só pelas curiosidades (são universais humanos fazer discursos em ocasiões especiais, ciúmes e onomatopeias), mas por que tem lá umas coisas que eu acho meio óbvias, mas que até hoje tem gente que acha que são invenções recentes (ou burguesas…), como a família e o tratamento diferenciado a crianças.
Aí vão alguns dos trechos que eu anotei:
“A megalomania dos genes não significa que a benevolência e a cooperação não podem evoluir, assim como a lei da gravidade não prova que a capacidade voar não pode evoluir. Significa apenas que a benevolência, como a capacidade de voar, é um estado de coisas especial que requer explicação, e não algo que simplesmente acontece. Ela pode evoluir somente em determinadas circunstâncias e tem de ser sustentada por um conjunto de faculdades cognitivas e emocionais. Assim a benevolência (e outros motivos sociais) tem de ser trazidas para o palco em vez de ser tratada como parte do cenário.” (pg. 83)
Sobre socidades humanas pré-estatais (vulgo índios, aborígenes ou selvagens): “Mas decerto é desnecessário pintar um falso retrato de um povo como pacífico e ecologicamente consciencioso para condenar os grandes crimes cometidos contra eles, como se o genocídio só fosse errado quando as vítimas são boazinhas.” (pg. 89)
“Searle observa que Mao [Tsé-tung] estava apenas parcialmente certo quando disse que o ‘poder político nasce do cano de uma arma ‘. Como nenhum regime pode manter uma arma apontada para cada cidadão, o poder político nasce da capacidade do regime para inspirar medo a um número suficiente de pessoas ao mesmo tempo.” (pg. 99)
Se você gostaria de saber mais sobre o livro sem tem que lê-lo, o próprio Pinker resume para você aqui.
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A evolução é que nem sua mãe te dizendo pra levar o guarda-chuva: você pode até achar que não precisa mais disso, mas ela costuma acertar. Os seus pés, por exemplo, foram muito bem cuidados pela seleção natural, de modo que os tênis de corrida e seus super amortecedores, no final das contas, fazem mais mal do que bem (estou falando das suas articulações, não garanto nada sobre medalhas olímpicas). O vídeo acima é muito persuasivo e didático, e lá pelas tantas o Prof. Lieberman diz algo como “sério que você achou que em 30 anos [os tênis foram inventados em meados da década de 70] ia fazer melhor do que a seleção natural em vários milhões?”.
Mas, verdade seja dita, por mais que a evolução se esforce, ela nem sempre pode aspirar à perfeição. Às vezes ela entra em uns di
lemas tipo “quadril pequeno ou cérebro grande?”. Para você ser um bípede eficiente precisa (entre outras muitas coisas) ter uma pelve estreita, que permita manter seus joelhos e pés diretamente abaixo do centro de gravidade do seu corpo. Pelo que eu entendo, isso diminui o gasto de energia muscular para te manter estável de pé e pra sobrecarregar menos os joelhos quando você se movimenta. (Mas não sou nem um pouco expert em biomecânica, então não acredite em mim, acredite neles). Pra termos um cérebro grande, precisamos de cabeças grandes; para sermos bípedes eficientes, precisamos de quadris estreitos. Isso evidentemente é um problema, visto que para vir ao mundo uma cabeça grande precisa passar por um quadril pequeno. As chances disso dar errado devem ter sido suficientes para a seleção natural nos levar para o caminho da cabeça grande-pelve grande, e nos transformar em bípedes inteligentes com dores pelo corpo (a minha lombar, nesse exato momento, está me matando).
Toda essa história de origem do bipedalismo (ou bipedia) é controversa, e cada vez que acham um esqueleto novo lá na África um monte de certezas vão por terra. O que eu queria dizer mesmo é muito simples: com tantos bugs biomecânicos nesse nosso corpinho, foram inventar de mexer justo na parte que funciona – o pé? They just did it.
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Foot strike patterns and collision forces in habitually barefoot versus shod runners. Daniel Lieberman et al. Nature, 28 January 2010.
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Tudo começou com uma troca de algarismos. Um relatório publicado em 2007 pelo IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática, comissão científica patrocinada pela ONU) saiu com um erro tipográfico. Em vez de preverem que o aquecimento global derreteria as geleiras do Himalaia por completo até 2350, acabaram anunciando o derretimento até 2035.
E daí?
Daí que existe uma infinidade de ávidas criaturinhas espalhadas por todo globo só esperando pela prova cabal e irrefutável de que essa história de que o aquecimento global atingiu as proporções atuais por causa da nossa espécie não passa de intriga para iludir os incautos. Uma parte dessas ávidas criaturinhas é só extremamente ingênua, a maior parte está agindo de má-fé mesmo. De todo modo, elas têm amplo acesso às principais fontes de “informação” do mundo inteiro (duvida? clique aqui), e abocanham com gosto qualquer oportunidade de mostrar que essa história de se preocupar com o clima é bobagem.
O IPCC errou? Errou. É inevitável que ele erre, dessa maneira e com essa frequência? É discutível (e a Nature discute isso essa semana aqui ou aqui). Agora, a equação IPCC = aquecimento global (e a ideia de que dando cabo do primeiro resolvemos o segundo) só existe em mentes de muita má-fé. Jornalista da Veja dizendo que o aquecimento global não existe baseado na sua intuição é dolo de premeditação.
“Fui muito otimista”
Quebrar o termômetro não vai fazer a febre passar. Mas encarar o aquecimento de frente tem custos, enormes custos. Um dos caras que calculou esses custos foi o economista britânico Nicholas Stern, autor de um dos mais influentes cálculos dos efeitos do aquecimento global na economia. Em plena temporada de caça ao IPCC ele veio a público defender o órgão e ainda acrescentou: “eu subestimei os efeitos do aquecimento”. Em entrevista ao jornal Le Monde na semana passada ele disse que foi “muito prudente, muito otimista” no seu relatório de 2006. E que é preciso baixar mais a concentração de gases estufa – e investir mais dinheiro nesse objetivo – do que ele havia previsto.
Alguém precisa dizer ao senhor Reinaldo Azevedo que os “céticos do Apocalipse” são os profetas da irresponsabilidade eterna. E não tem nada de novo nisso.
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Olha, eu não sou #teamdawkins, definitivamente (Dawkins é aquele biólogo que acha que o ateísmo resolve mais problemas que a panaceia do Brás Cubas). Mas achei o máximo ver a frase que dá titulo a esse post na primeira página do jornal. Sem contar que o texto trazia pérolas como “a religião fornece apenas regras locais para casos muito específicos” ou “A religião (…) sobrevive por que parasita efetivamente outras estruturas cognitivas evoluídas”.
Bom, os autores do estudo que saiu na capa do Estadão são total #teamdawkins, mas não se pode negar que têm bons argumentos. Dizem que não precisamos de seres sobrenaturais para sermos legais; cooperamos por que fomos feitos pra fazer isso. (Bom, alguns mais que outros.) Eles estão amparados em centenas e centenas de estudos empíricos que nos ajudam a entender onde afinal reside a moralidade humana. Não dá pra negar a força do pensamento religioso; ele permite a união de milhões (ou mesmo bilhões) de humanos sem laços de parentesco. Mas também não dá pra resumir a moralidade a isso. O que se vê é que acreditar em Deus pode sim te fazer ser mais legal – mas acreditar que vivemos em uma sociedade onde erros serão punidos e boas ações valorizadas tem o mesmo efeito. É o que os autores chamam de accountability: agimos diferente se soubermos que teremos que responder pelas nossas ações.
Se você quiser entender de onde que eles tiram essas ideias – participando delas! – aí vão dois links de pesquisa (e mais dois de diversão):
The Moral Sense Test – Teste dos autores do estudo em questão. Tem versão em espanhol.
Your Morals.org – Outro estudo do tipo. Relaciona opiniões morais e convicções políticas (republicanos tendem a considerar que comportamento sexual tem mais a ver com moralidade do que democratas, por exemplo). Só em inglês.
Ichonochasm – Faz parte do site political compass, que, como diz o nome, é uma espécie de bússola política, dizendo se você está mais para Margareth Tatcher, Pol Pot ou Mandela. Mas esse quiz, particularmente, é pra você medir o quanto você (não) conhece seus ídolos morais, seja ele o Gandhi ou o Al Gore. E de novo, só em inglês.
Assim falava Bart: Nietzsche e as virtudes de ser mau (in Os Simpsons e a Filosofia) – Não é um quiz, nem um artigo científico, mas este blog é assim mesmo. E está inglês também, lógico (que eu posso fazer se os brasileiros não colaboram?). Em resumo, a questão é: por que é que a gente tem que ser bom mesmo? Se quiserem ser menos engraçadinhos e ir direto na fonte, A Genealogia da Moral é muito bom.
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The origins of religion : evolved adaptation or by-product? Ilkka Pyysiäinen & Marc Hauser . Trends in Cognitive Sciences, 08 February 2010
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Ou, em bom português, quem não te conhece que te compre. Se você algum dia já se desentendeu com um colega por causa do ar-condicionado, você deveria saber que a COP15, a 15ª Conferência da ONU sobre Clima, estava destinada ao fracasso. Não ao fracasso total, necessariamente – mas algum fracasso é inevitável. O problema das decisões coletivas é que elas são tomadas por indivíduos e existem tantos interesses quanto existem pessoas na terra. Nós deveríamos estar todos do mesmo lado; mas se fosse assim tão fácil, aqueles que menos contribuíram para o aquecimento global não poderiam ser as maiores vítimas dele. E provavelmente serão. Isso não significa que o problema não tenha solução; o avanço que temos visto na questão ambiental beira o inacreditável. O projeto Hopenhagen (cujo trocadilho cede o título a essas mal traçadas) é uma das provas disso. Por que mega-companhias organizam e financiam projetos desse tipo? Por que escândalos ambientais agora são isso mesmo, escândalos. E pegam mal de um jeito que não poderíamos imaginar há 50 anos atrás.
Se você não tem alergia a ufanismos, pode ler sobre a participação brasileira na COP 15 no site do governo. Se não se importar com algumas doses de melancolia e patrocínio maciço de alguns dos maiores poluidores do mundo, o site oficial do evento é imperdível.
Em algumas horas, teremos finalmente o “Protocolo de Copenhague” – ou a falta dele.
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Ou pelo menos do que eu pensava (e pode substituir o “esquisito” por “evolutivamente condenado”). Ursinhos panda pertencem à família do mico-leão-dourado de fofuras ecológicas: a grande importância deles nos seus ecossistemas é a de serem garotos-propaganda do próprio ecossistema. Como dizia um biólogo amigo meu, campanhas para salvar as formigas da mata atlântica não têm muito apelo comercial. É mais ou menos como contratar uma modelo jovenzinha para fazer propaganda de anti-rugas: se você fosse sincero com seu público, ele não ia comprar seu produto. Então, em vez de camisetas com vespas venenosas ou besouros de hábitos anti-higiênicos, você elege algum animalzinho mais bonitinho para simbolizar os seus esforços de preservação e esperar que as pessoas se comovam com sua fotogenia. Pandas são um exemplo extraordinário dessa tendência: são um símbolo internacional da preservação ambiental e parecem estar só fazendo hora extra na terra. (Eles são bichos enormes, que só se alimentam de um tipo de comida que depende da conscientização ambiental dos chineses para continuar existindo – hello?) Mas aí o pessoal resolve seqüenciar o genoma desse bichinho e o que eles descobrem? Que os pandas têm TODAS as enzimas para digerir carne e nenhuma remotamente parecida com uma celulase (que são as enzimas que digerem a celulose presente nos vegetais – e que animais herbívoros costumam ter sobrando). Considerando que os pandas fazem parte da ordem Carnivora (de nome auto-explicativo), isso não é exatamente uma surpresa. Mas quando eu penso que um bicho que podia estar comendo o que lhe desse na telha está ameaçado de extinção por que a única coisa que ele se digna a comer está sumindo do mapa… Bem, essa não é a única razão pela qual ele está ameaçado de extinção, mas ainda assim eu acho que é para ler o artigo ouvindo He had it comin’.
Comentários maldosos sobre os pobres pandinhas à parte, o que os pesquisadores que comentaram o artigo querem saber é: se nós sabemos que o problema dos pandas é o hábitat encolhendo, para que exatamente gastar dinheiro seqüenciando seu genoma? Não que seja inútil, mas será que não podemos usar a verba disponível de maneira mais eficiente? Quando saiu o genoma do Schistosoma mansoni, um professor de biologia fez uma pergunta parecida: se nós sabemos que as pessoas se infectam com o esquistossoma por terem contato com água contaminada, será que o melhor jeito de proteger as 35 milhões de pessoas que, estima-se, estão sob risco de contaminação no Brasil, é seqüenciando o genoma do helminto? E ele citou um caso que eu presenciei. No meu primeiro ano de faculdade, ainda na biologia, esse professor ministrou uma aula-trote. Lá pelas tantas, ele disse que, para evitar o crescente número de urubus nas turbinas dos aviões, estava sendo realizado um melhoramento genético nas aves, de modo a selecionar geneticamente aquelas que voam baixo (uma piada, evidentemente). Mas um colega meu, ainda levando a sério a aula, perguntou: não é mais fácil mudar as turbinas do que os urubus?
Pois é. Talvez repensar prioridades impeça que o panda vire o próximo dodô – e vá de garoto-propaganda a mártir da causa.
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Esse post é meio off-topic, mas vamos lá…

Piscina da USP (Crédito: Y.A. Bertrand)
Eu “conheci” Yann Arthus Bertrand (http://www.yannarthusbertrand.com/) em 2005, quando vi a exposição de suas fotografias, onde diversos lugares da Terra foram fotografadas de helicópteros e balões. A exposição se chamava “Earth from Above” (La Terre vue du Ciel), e as fotos eram realmente absurdas. Mas então:
Bertrand é o autor do filme, “Home”, um documentário com tomadas aéreas feitas de helicóptero em 54 países (!). No Dia Mundial do Meio Ambiente (05/06), o filme estreou mundialmente (em São Paulo, está passando no Espaco Unibanco do Frei Caneca e Bourbon e no cine UOL Lumière) na qual mostra imagens espetaculares, e também dados assustadores sobre a destruição do meio ambiente pelo … homem. Além de lidarmos com o espanto, agora temos também nas nossas costas a culpa – “sou responsável também?” (veja o post sobre emissões de CO2).
O filme está disponível online também, onde Bertrand postou no Youtube.
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Ou: Ble, Galazio e Kraudlortok reloaded.
A Sra. Boroditsky, uma guriazinha com cara de Uma Thurman e professora em Stanford e no MIT [/envy], acaba de publicar um texto com o título acima no edge.org (sempre ele). A pergunta é a mesma que nós já fizemos anteriormente; a resposta, também. Em resumo: sim, dá pra gente concluir que a linguagem molda a maneira que a gente pensa. A graça está em como fazer para concluir essas coisas:
1. Uma viagem para Pormpuraaw, uma comunidade aborígene australiana.
Muitos grupos aborígenes usam referenciais absolutos para falar sobre espaço. Então, em vez de usarem indicações como “esquerda” e “direita”, eles dizem coisas como “tem uma formiga na sua perna sudeste” ou “mova a xícara a norte-nordeste um pouquinho”.
Isso é particularmente interessante por que a gente constrói uma série de representações metafóricas baseadas na nossa noção de espaço. Exemplo: nossa representação de tempo. Se você (um falante da língua portuguesa, presumo) tivesse que ordenar uma série de imagens como as abaixo, o faria em que ordem?

Provavelmente da esquerda para direita, enquanto falantes de hebraico (que escrevem da direita para esquerda), ordenam na ordem inversa – isto é, do mesmo modo como escrevem. E os aborígenes? Depende. Quando estão sentados virados para o sul, ordenam da esquerda para a direita. Virados para o norte, da direita para a esquerda. E quando virados para o leste, arranjam as imagens na direção do próprio corpo, de cima para baixo – ou seja, eles sempre ordenam as cartas no sentido leste-oeste. E não precisam de bússola: eles sabem muito bem onde estão no espaço.
2. Um experimento com americanos e gregos: para eles o tempo passa diferente?
Quem já tentou aprender inglês sabe como é se acostumar a isso: se não vai demorar muito, é por que it won’t take long; nós (assim como os gregos) pensamos em quantidade, eles em comprimento. Uma consequencia disso é que uma habilidade cognitiva básica, como a estimativa de duração, varia de acordo com a metáfora escolhida: americanos acham que uma linha de comprimento maior passa mais tempo sendo exibida na tela do que uma linha curta, enquanto gregos acham que um pote mais cheio fica mais tempo na tela que um mais vazio.
3. Um experimento com alemães e espanhóis: a morte é menina ou menino?
Alemães, assim como nós e os espanhóis, atribuem gênero aos substantivos (e falantes do inglês acham esse hábito deveras curioso). Chave, em alemão, é masculino; em espanhol, feminino. Ponte é o contrário. O que acontece se a gente pedir para alemães e espanhóis atribuirem adjetivos a “chave” e “ponte”? Enquanto os alemães acham que as chaves são “duras”, “pesadas”, “metálicas” e “úteis”, os espanhóis acham elas “pequenas”, “douradas”, “brilhantes” e “intrincadas”. (E eles acham tudo isso em inglês, que não tem gênero atribuído aos substantivos.) Com a ponte acontece o contrário, e até a morte segue o mesmo padrão. 85% das personificações da morte em obras de arte podem ser previstas pelo gênero da palavra “morte” na língua nativa do pintor. Para os alemães, é um homem. Para os russos, uma mulher.
4. Just checking: e como a gente sabe que a língua que molda a nossa percepção, e não os fatores culturais que moldam a língua?
O pessoal de Stanford ensinou falantes de inglês a atribuir gênero a certos substantivos, como fazemos nós (e quase todo mundo, creio), e eles começaram a achar que as chaves eram femininas e as pontes masculinas, ou vice-versa.
Aí eu me pergunto: e se pedir para um brasilero atribuir qualidades ao sol (feminino em alemão) ou a um piano (neutro em alemão) em alemão? É diferente do que atribuir adjetivos às mesmas palavras em português?
E tem uma coisa que eu acho engraçado: certas palavras parecem equivalentes (como ble e azul-claro, e galazio e azul-escuro), mas fazem toda a diferença na nossa percepção de mundo. Ao passo que eu acho que o fato de nós não termos uma palavra para designar aquela ótima-resposta-que-só-ocorre-quando-já-é-tarde-demais não significa nós vejamos o mundo diferente dos alemães (nesse sentido pelo menos). Em outras palavras: no primeiro exemplo temos a palavra, mas não a ideia. No segundo temos a ideia, mas não a palavra.
No caso, treppenwitz.
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Lendo o artigo da Science desta semana me lembrei do filme “Sangue Negro” (There will be blood), que fala sobre poder e petróleo. É porque os geólogos concluíram que 1/3 da reserva de gás natural e 4% do petróleo (83 bilhões de barris) do planeta estão no norte do Ártico, a 500 m abaixo da água. Será que em breve veremos mais escavações (e devastação ambiental) pelo Alasca & Ártico? Homens com mapas na mão e furadeira na outra?

As áreas em Vermelho (escuro ou claro) mostram a presença do gás. (Crédito: Science)
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